Tudo mundo erra
Aos amadores, tudo é perdoado. Errar letra de música é um esporte popular, que praticamos desde a infância. E não me refiro ao Hino Nacional, com sua letra capciosa, cheia de pegadinhas, mas às canções de nossa rica música popular, tão festejada quanto maltratada.
Canções ouvidas em shows barulhentos ou em rádios fora de sintonia induzem a erro, o que é compreensível. Eu mesmo, que ando com o disco rígido cheio e já não registro informações novas com a mesma rapidez da adolescência, vivo trocando verbos e advérbios cantarolados. O caso se agrava quando cantores ou aspirantes gravam ou cantam uma canção em público. Pressupomos que houve uma escolha, um estudo da letra, uma audição atenta e algum ensaio. Se depois de tudo isso o "canário" insiste no erro, torna-se motivo de piada.
Comecei a minha coleção quando ouvium grupo num barzinho, alegremente atropelar o Adoniran com um inesquecível "um palacete à sombra dágua". Fiquei meses tentando imaginar como seria o tal palacete, embora reconheça que o "assobradado" da letra original também fosse fora de moda. Ouvi um imitador de Belchior cometer um "você que é mal-passado e que não vê". Quem "ama o passado" percebe que o besteirol anda sempre à espreita. Ouvi, certa vez, um esforçado intérprete de barzinho, com aquele erre típico do interior, afirmar que "solidão é larva, que cobre tudo". Mas isso foi bem antes de Marisa Monte popularizar novamente o belo samba de Paulinho da Viola. Creio que hoje o Brasil todo canta certo, embora nunca tenha visto lava pela frente.
Outra recriação inesquecível é "Ao sair do avião/ zum de besouro, um imã". Perdoei a mocinha que cantou isso pela primeira vez, afinal esta versão fazia mais sentido do que o "Açaí, guardiã", do Djavan. Aliás, eu defendo o perdão pra todo mundo que não consegue entender uma letra do Djavan, do Luiz Melodia ou de algum samba-enredo contemporâneo. Este tipo de erro ganhou até um nome: virundu. Há listas na Internet onde as pessoas trocam virundus, criando um enorme acervo de bobagens e trocadilhos involuntários. Na Tribuna do Samba-Choro, por exemplo, conheci alguns ótimos, e descobri que o "palacete à sombra dágua" é cantado no Brasil inteiro. O Adoniram, também confundido com Dona Iran, fez muito neguinho no Rio cantar "Vascaíno, um, vascaíno, um" em vez de "pascarigundum", que ninguém sabe mesmo o que quer dizer.
Um virundu áudio-visual: Vi um cantor de churrascaria entoar o "Camisa Listrada" e, no trecho "em vez de tomar chá com torrada, ele tomou parati" o sujeito esticava o braço languidamente para uma perua sentada na primeira mesa. Intrigado, vi que ele repetiu o gesto no bis, e só então percebi que o camarada interpretava "ele tomou para ti". Caí na gargalhada, e fui fuzilado pelo olhar do galã. A lista é grande, e cresce diariamente. Nem sequer ouso entrar nos domínios da música pop, do roquinho nacional, do axé, do pagode ou do breganejo, porque senão, já viu, né? Os americanos tem até um site especializado no assunto. Gershwin e Cole Porter à vontade, provando que o virundu é internacional. Aliás, se você ainda não percebeu, virundu é uma corruptela do primeiro verso do nosso Hino. Ouviram do Ipiranga, mais conhecido como O Virundu, pai de todos os virundus.
Mas vocês pensam que só anônimos cometem erros? A idolatrada Elis Regina, duvidando da natureza, decretou, impávida: "A aranha, duvido que tece". Gil, autor da bela Oriente, foi mais sensato ao constatar que "a aranha, vive do que tece, vê se não se esquece". Acho que o último verso ele escreveu para a Elis, antevendo a derrapada, mas não adiantou.